Entorse do Punho (Lesão Escafossemilunar) — Tratamento Especializado em São Paulo

Revisado por Dr. Marcelo Teixeira, cirurgião da mão (CRM/SP 230359, RQE 130740) · Atualizado em 27 de setembro de 2026
Entorse do punho é o estiramento ou a ruptura de um dos ligamentos que unem os ossos do carpo. A mais importante é a lesão do ligamento escafossemilunar, que une o escafoide ao semilunar e é o principal estabilizador da fileira proximal do punho. Quando ele se rompe, os dois ossos passam a se mover de forma descoordenada, o que pode levar à artrose do punho (punho SLAC).
O grande problema é que a lesão escafossemilunar costuma ser tratada como 'só uma torção'. A radiografia simples pode vir normal nas lesões parciais ou dinâmicas, e os testes clínicos têm acurácia apenas moderada — o teste de Watson detecta de 50% a 66% das lesões. Por isso, dor no dorso do punho, estalo ou fraqueza que persistem além de 2 semanas merecem investigação com radiografias sob estresse, artrorressonância ou artroscopia. Lesões parciais geralmente melhoram com imobilização; rupturas completas recentes podem ser reparadas; e as crônicas exigem reconstrução. A lesão também acompanha cerca de 1 em cada 3 fraturas do punho.

Entorse do Punho (Lesão Escafossemilunar) em números
- ~1 em 3 fraturas do punho têm lesão associada dos ligamentos do carpo (Fonte: Fowler TP, J Am Acad Orthop Surg, 2019)
- 41% de lesão escafossemilunar associada à fratura do rádio distal (12 estudos) (Fonte: Kastenberger T et al., Arch Orthop Trauma Surg, 2020)
- 50-66% sensibilidade do teste de Watson — um exame normal não exclui a lesão (Fonte: Schmauss D et al., Journal of Clinical Medicine, 2022)
- 94% dos punhos com artrose SLAC operados seguem sem artrodese total em 10 anos (Fonte: Garcia BN et al., J Bone Joint Surg Am, 2020)
Sintomas
- Dor no Dorso do Punho — Dor na parte de cima do punho, no meio, logo além da saliência do rádio — exatamente sobre o intervalo entre o escafoide e o semilunar.
- Estalo ou 'Clunk' — Sensação de estalo ou de algo que 'escapa' ao mexer o punho, especialmente ao desviar a mão para o lado do polegar.
- Fraqueza ao Apoiar e Segurar — Dificuldade para fazer flexão de braço, apoiar-se na mão para levantar ou segurar objetos pesados.
- Dor que Não Passa Após a 'Torção' — Uma entorse simples melhora em dias a 2 semanas. Dor, inchaço ou estalo que persistem além disso sugerem lesão ligamentar.
Quando se preocupar: Uma entorse simples do punho melhora em poucos dias a 2 semanas. Procure um cirurgião da mão se a dor no dorso do punho, o estalo ou a fraqueza persistirem além disso — principalmente após queda com a mão estendida —, mesmo que o raio-X tenha vindo normal. O diagnóstico precoce permite reparar o ligamento antes que a instabilidade se torne crônica e evolua para artrose.
Causas e fatores de risco
- Queda com a Mão Estendida — O mecanismo clássico: o punho em extensão e desviado para o lado do dedo mínimo 'abre' o escafoide em relação ao semilunar e rompe o ligamento.
- Esportes e Quedas de Altura — Skate, futebol, ciclismo, lutas, vôlei e ginástica. Quedas de altura podem causar lesões mais graves, que envolvem vários ligamentos do carpo.
- Fratura do Punho Associada — Cerca de 1 em cada 3 fraturas do rádio distal vem acompanhada de lesão dos ligamentos escafossemilunar ou semilunopiramidal.
- Diagnóstico Tardio — Lesões confundidas com 'entorse simples' perdem a janela de reparo e podem evoluir para instabilidade crônica e artrose (punho SLAC).
Como é feito o diagnóstico
Palpo o intervalo escafossemilunar no dorso do punho e faço o teste de Watson (deslocamento do escafoide) e o balotamento escafossemilunar, comparando com o outro lado. Esses testes ajudam, mas têm acurácia moderada: o teste de Watson detecta de 50% a 66% das lesões, então um exame normal não descarta o problema quando a história é sugestiva.
Radiografias de frente, perfil e com o punho cerrado (sob estresse) procuram sinais de instabilidade: afastamento entre escafoide e semilunar maior que 3 mm, sinal do anel cortical e ângulo escafossemilunar acima de 60-70°. Artrorressonância e artrotomografia avaliam rupturas parciais e completas. A artroscopia do punho é o padrão-ouro: gradua a lesão (classificações de Geissler e EWAS) e permite tratá-la no mesmo procedimento.
Opções de tratamento
- Imobilização (Lesão Parcial) (Conservador) — Entorses e rupturas parciais com alinhamento normal: tala ou gesso por cerca de 4 a 6 semanas, seguidos de fisioterapia de propriocepção.
- Artroscopia: Desbridamento e Capsulodese (Minimamente Invasivo) — Para instabilidades dinâmicas e rupturas parciais de maior grau: desbridamento, capsulodese artroscópica e fixação temporária com fios, por pequenos cortes.
- Reparo do Ligamento (Lesão Aguda) (Cirúrgico) — Rupturas completas recentes (até cerca de 6 semanas): reinserção do ligamento com âncoras, geralmente reforçada por capsulodese dorsal.
- Reconstrução ou Cirurgia de Salvamento (Crônico) — Lesões crônicas: reconstrução com enxerto de tendão (Brunelli modificado, tenodese de três ligamentos) ou osso-ligamento-osso. Com artrose (punho SLAC): carpectomia proximal ou artrodese dos quatro cantos.
Quando há cirurgia: duração de 60-120 minutos, anestesia regional (bloqueio do braço), recuperação de 8-12 semanas.
Recuperação
- 0-6 Semanas — Imobilização (tratamento conservador) ou proteção pós-operatória. Os dedos ficam livres para se mexer.
- 6-12 Semanas — Fisioterapia com foco em propriocepção e no 'movimento do arremessador de dardos' — um arco diagonal que quase não movimenta a articulação escafossemilunar e protege o ligamento.
- 3-6 Meses — Fortalecimento progressivo e retorno gradual ao trabalho pesado e ao esporte, conforme o tratamento realizado.
- Após Reconstrução — A recuperação é mais longa. Alguma perda de movimento é comum, mas a força e a função costumam melhorar de forma importante.
Perguntas frequentes
- Disseram que era só uma entorse. Por que ainda dói semanas depois?
- Uma entorse simples do punho melhora em dias a 2 semanas. Dor no dorso do punho, estalo ou fraqueza que persistem além disso sugerem lesão de ligamento — principalmente do escafossemilunar —, que pode existir mesmo com raio-X normal.
- O raio-X mostra a lesão do ligamento?
- Nem sempre. Nas lesões parciais ou dinâmicas, a radiografia comum pode ser normal. Radiografias com o punho cerrado (sob estresse), artrorressonância ou artrotomografia ajudam, e a artroscopia do punho é o padrão-ouro para confirmar e graduar a lesão.
- Toda lesão do ligamento escafossemilunar precisa de cirurgia?
- Não. Lesões parciais com alinhamento normal dos ossos costumam ser tratadas com imobilização por 4 a 6 semanas. A cirurgia é indicada para rupturas completas, instabilidade e casos que não melhoram com o tratamento conservador.
- O que acontece se a lesão não for tratada?
- Uma ruptura completa sem tratamento faz o escafoide e o semilunar se moverem de forma descoordenada. Com os anos, isso leva a um padrão previsível de artrose chamado punho SLAC, que começa no rádio e avança para o centro do punho e pode exigir cirurgias de salvamento.
- O teste de Watson confirma o diagnóstico?
- Não sozinho. Em um estudo com 447 pacientes operados por artroscopia, o teste de Watson teve sensibilidade de 50% a 66% e especificidade de 62%. Ele ajuda, mas um teste negativo não exclui a lesão quando a suspeita clínica é alta.
- Vou recuperar o movimento e a força após a cirurgia?
- Os reparos e reconstruções costumam devolver boa força e função, embora alguma perda de movimento seja comum. Em uma série de reconstrução osso-ligamento-osso assistida por artroscopia, com mais de 4 anos de acompanhamento, força e movimento melhoraram e não houve progressão para artrose.
- E se já houver artrose (punho SLAC)?
- Existem duas cirurgias principais que preservam movimento: a carpectomia da fileira proximal e a artrodese dos quatro cantos. Uma meta-análise com 3.174 punhos mostrou mais extensão e alívio da dor com a carpectomia, e menos conversão para artrodese total (5,2% contra 11%). Em 10 anos, cerca de 94% dos punhos continuam livres de artrodese total com as duas técnicas.
- Fraturei o punho. Preciso me preocupar com os ligamentos?
- Sim. Cerca de 1 em cada 3 fraturas do rádio distal tem lesão associada dos ligamentos escafossemilunar ou semilunopiramidal — em uma revisão de 12 estudos, a lesão escafossemilunar apareceu em 41% dos casos. Dor no dorso do punho que persiste após a consolidação merece avaliação.
Referências científicas
- Wessel LE, Wolfe SW. Scapholunate instability: diagnosis and management — classification and treatment considerations, part 2. Journal of Hand Surgery (American), 2023.
- Morrell NT, Moyer A, Quinlan N, Shafritz AB. Scapholunate and perilunate injuries in the athlete. Current Reviews in Musculoskeletal Medicine, 2017.
- Lui TH, Slocum AMY. Scaphoid shift test in scapholunate ligament injury. New England Journal of Medicine, 2022.
- Schmauss D, Pöhlmann S, Weinzierl A, et al. Relevance of the scaphoid shift test for the investigation of scapholunate ligament injuries. Journal of Clinical Medicine, 2022.
- Prosser R, Harvey L, Lastayo P, et al. Provocative wrist tests and MRI are of limited diagnostic value for suspected wrist ligament injuries: a cross-sectional study. Journal of Physiotherapy, 2011.
- Fowler TP. Intercarpal ligament injuries associated with distal radius fractures. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2019.
- Kastenberger T, Kaiser P, Schmidle G, et al. Arthroscopic assisted treatment of distal radius fractures and concomitant injuries. Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, 2020.
- Klempka A, Wagner M, Fodor S, et al. Injuries of the scapholunate and lunotriquetral ligaments as well as the TFCC in intra-articular distal radius fractures: prevalence assessed with MDCT arthrography. European Radiology, 2016.
- Lameijer CM, Teuben MPJ, van Delft EAK, et al. ESTES recommendations regarding distal radius fractures. European Journal of Trauma and Emergency Surgery, 2026.
- Palisch AR, Leinfelder SJ, Bahouth SM, Balzer AR, Hunt TR. Preoperative and postoperative imaging of scapholunate ligament primary repair and modified Brunelli reconstruction. Radiographics, 2021.
- van Kampen RJ, Coert JH, Moran SL. Mid-term outcomes of three commonly used surgical reconstructions for scapholunate instability. Journal of Hand Surgery (European), 2024.
- Della Rosa N, Bertozzi N, Annoscia P, Adani R. Long-term outcomes of arthroscope-assisted bone-ligament-bone reconstruction for nonstatic scapholunate ligament injury. Plastic and Reconstructive Surgery, 2022.
- Hones KM, Hao KA, Rakauskas TR, et al. Four-corner fusion versus proximal row carpectomy for scapholunate advanced collapse and scaphoid nonunion advanced collapse wrist: a systematic review and meta-analysis. Journal of Hand Surgery (American), 2024.
- Garcia BN, Lu CC, Stephens AR, et al. Risk of total wrist arthrodesis or reoperation following 4-corner arthrodesis or proximal row carpectomy for stage-II SLAC/SNAC arthritis: a propensity score analysis of 502 wrists. Journal of Bone and Joint Surgery (American), 2020.
- Amer KM, Thomson JE, Vosbikian MM, Ahmed I. Four-corner arthrodesis versus proximal row carpectomy for scapholunate advanced collapse: a systematic literature review and meta-analysis. Annals of Plastic Surgery, 2020.
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