Fratura do Escafoide — Tratamento Especializado em São Paulo

Raio-X de fratura do escafoide no punho, com o osso escafoide destacado
Raio-X de fratura do escafoide no punho, com o osso escafoide destacado — Fonte: James Heilman, MD / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (adaptada)

Revisado por Dr. Marcelo Teixeira, cirurgião da mão (CRM/SP 230359, RQE 130740) · Atualizado em 27 de setembro de 2026

A fratura do escafoide é a quebra do escafoide, o pequeno osso do punho localizado na base do polegar. É a fratura mais comum dos ossos do carpo — 60% a 70% delas — e acontece tipicamente em homens jovens após uma queda com a mão estendida. Por ter circulação sanguínea frágil, tem alto risco de não consolidar se não for diagnosticada e tratada a tempo.

O escafoide recebe o sangue 'de baixo para cima': a artéria entra pela parte distal do osso e percorre o interior até o polo proximal. Por isso, quanto mais perto do antebraço for a fratura, maior o risco de pseudartrose (não consolidação) e de necrose do fragmento. O grande desafio é o diagnóstico: cerca de 20% das fraturas suspeitas com raio-X normal são confirmadas depois, e a ressonância magnética esclarece a dúvida com especificidade de 100%. Uma pseudartrose não tratada evolui para artrose em 62% dos casos — o chamado punho SNAC. Com diagnóstico precoce, a maioria das fraturas sem desvio consolida com gesso; fraturas desviadas ou do polo proximal se beneficiam da fixação com parafuso.

Ilustração de fratura do escafoide: traço de fratura no osso escafoide, entre o rádio e a base do polegar
O escafoide fica no lado do polegar do punho; como o sangue chega ao osso pela parte distal, a fratura da cintura pode demorar a consolidar — Fonte: Servier Medical Art / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (adaptada)

Fratura do Escafoide em números

  • 60-70% das fraturas dos ossos do carpo são do escafoide (Fonte: Dias JJ et al., Lancet, 2020)
  • ~20% das fraturas suspeitas com raio-X normal são confirmadas depois (Fonte: Mallee WH et al., Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015)
  • 100% de especificidade da ressonância para a fratura oculta (Fonte: Mallee WH et al., Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015)
  • 62% das pseudartroses não tratadas evoluem com artrose do punho (Fonte: Dias JJ et al., Injury, 2023)

Sintomas

  • Dor na Base do Polegar — Dor no lado do polegar do punho, especialmente na 'tabaqueira anatômica' — a pequena depressão que aparece ao esticar o polegar.
  • Dor ao Apoiar ou Pinçar — Dor ao fazer força, apoiar a mão no chão (como numa flexão de braço) ou pinçar objetos com o polegar.
  • Inchaço Discreto — O inchaço costuma ser pequeno — por isso muitos acham que foi só uma 'torção' e não procuram atendimento.
  • Raio-X Inicial Normal — Até 20% a 25% das fraturas do escafoide não aparecem na primeira radiografia. Dor que persiste após a queda exige investigação.

Quando se preocupar: Se você caiu com a mão estendida e sente dor na base do polegar, trate como fratura até prova em contrário — mesmo com raio-X normal. Procure um cirurgião da mão se a dor persiste por mais de uma semana, se a força para segurar objetos diminuiu ou se uma 'torção antiga' do punho continua doendo meses depois: pode ser uma pseudartrose, que evolui para artrose se não for tratada.

Causas e fatores de risco

  • Queda com a Mão Estendida — O mecanismo clássico: o punho dobra para trás e o escafoide se quebra contra a borda do rádio.
  • Esportes e Atividade Física — Futebol, skate, ciclismo, basquete e lutas. O pico ocorre em homens entre 20 e 24 anos, com incidência de 10 a 29 casos por 100 mil pessoas por ano.
  • Fratura do Polo Proximal — Por causa da circulação 'de baixo para cima', fraturas perto do antebraço têm a maior taxa de pseudartrose, qualquer que seja o tratamento.
  • Desvio, Tabagismo e Demora no Diagnóstico — Desvio maior que 1 mm, fumar e começar o tratamento tarde aumentam o risco de a fratura não consolidar.

Como é feito o diagnóstico

Examino três pontos: a tabaqueira anatômica (sensibilidade de 87% a 100%), o tubérculo do escafoide e a compressão axial do polegar. Nenhum teste isolado confirma a fratura, mas quando os três são positivos a probabilidade de fratura chega a cerca de 60% — e, nesse caso, o punho é imobilizado mesmo com raio-X normal.

Peço radiografias em incidências específicas para o escafoide. Se o raio-X é normal e a suspeita continua, a ressonância magnética é o exame de escolha: especificidade de 100% e sensibilidade de 88%, sem radiação (Cochrane, 2015). A tomografia serve para medir o desvio, planejar a cirurgia e confirmar a consolidação (mais de 50% de ponte óssea) por volta de 6 semanas.

Opções de tratamento

  1. Gesso Curto (Fratura Sem Desvio) (Conservador) — Fraturas sem desvio da cintura e do polo distal: gesso abaixo do cotovelo por 6 a 12 semanas. Incluir o polegar não melhora a consolidação — em um ensaio clínico, o gesso sem o polegar consolidou 85% x 70% em 10 semanas.
  2. Parafuso Percutâneo (Cirúrgico) — Parafuso de compressão sem cabeça, colocado por um pequeno corte. Indicado para fraturas desviadas (mais de 1-2 mm), do polo proximal e para quem precisa voltar rápido ao trabalho ou ao esporte.
  3. Enxerto Ósseo (Pseudartrose) (Reconstrução) — Quando a fratura não consolida: limpeza da pseudartrose, enxerto ósseo e fixação. Consolidação de 87% a 89% — e de 96,5% quando não há necrose nem fratura do polo proximal.
  4. Técnica Artroscópica (Minimamente Invasivo) — Em pseudartroses selecionadas, a artroscopia de punho permite preparar o foco e colocar o enxerto e o parafuso com menor agressão aos ligamentos e à circulação do osso.

Quando há cirurgia: duração de 30-60 minutos, anestesia regional (bloqueio do braço), recuperação de 6-12 semanas.

Recuperação

  1. 0-6 Semanas — Gesso curto ou tala após o parafuso. Os dedos ficam livres para se mexer; evite carga e apoio na mão.
  2. 6 Semanas — Tomografia para confirmar a consolidação (mais de 50% de ponte óssea). Fraturas do polo distal costumam consolidar em cerca de 6 semanas.
  3. 6-12 Semanas — Fraturas da cintura consolidam entre 6 e 12 semanas. Fisioterapia para recuperar movimento e força de preensão.
  4. 3 Meses — Retorno progressivo ao esporte e ao trabalho pesado, sempre após a consolidação confirmada por imagem.

Perguntas frequentes

O raio-X veio normal. Ainda posso ter fratura do escafoide?
Sim. Cerca de 20% das fraturas suspeitas com raio-X normal são confirmadas depois. A conduta segura é imobilizar o punho e fazer uma ressonância magnética, que tem especificidade de 100% e sensibilidade de 88% para fratura oculta (Cochrane, 2015).
Gesso ou cirurgia: o que é melhor?
Depende do tipo de fratura. No estudo SWIFFT (Lancet, 2020; 439 pacientes), para fraturas da cintura com desvio de até 2 mm, gesso e parafuso tiveram função semelhante em 1 ano. A cirurgia teve mais complicações graves (14% x 1%), mas menos pseudartrose. Por isso, reservamos o parafuso para fraturas desviadas, do polo proximal ou que não consolidam.
Quanto tempo fico de gesso?
Fraturas do polo distal consolidam em cerca de 6 semanas; fraturas da cintura, entre 6 e 12 semanas. Uma tomografia por volta de 6 semanas confirma se o osso já consolidou antes de liberar o punho.
O gesso precisa imobilizar o polegar?
Não. Estudos mostram que incluir o polegar não aumenta a consolidação — em um ensaio clínico, o gesso sem o polegar teve 85% de consolidação em 10 semanas contra 70% com o polegar imobilizado. O gesso curto preserva melhor a função da mão.
Por que a localização da fratura importa tanto?
Porque o sangue entra pelo polo distal do escafoide e segue até o polo proximal. Uma fratura da cintura ou do polo proximal pode cortar essa circulação, aumentando o risco de pseudartrose e de necrose do fragmento. Fraturas do polo proximal têm a maior taxa de não consolidação.
O que acontece se a fratura não consolidar?
Forma-se uma pseudartrose. Em um estudo com 278 casos, 62% já tinham artrose do punho — em 94% deles no padrão SNAC, um desgaste progressivo que começa no rádio e avança pelo carpo. Por isso, confirmar a consolidação com imagem é essencial.
Pseudartrose do escafoide tem tratamento?
Sim. A cirurgia com enxerto ósseo e fixação consolida o osso em 87% a 89% dos casos, e em 96,5% quando não há necrose nem fratura do polo proximal (meta-análise com 7.671 pacientes). Quanto mais cedo, melhor — antes que a artrose se instale.
Quando posso voltar ao esporte?
Somente após a consolidação confirmada por imagem, em geral depois de 3 meses. O parafuso pode acelerar o retorno em alguns casos — em um ensaio com militares, a volta ao trabalho foi em 8 semanas contra 15 com gesso —, mas no estudo SWIFFT o tempo afastado do trabalho foi semelhante.

Referências científicas

  1. Dias JJ, Brealey SD, Fairhurst C, et al. Surgery versus cast immobilisation for adults with a bicortical fracture of the scaphoid waist (SWIFFT): a pragmatic, multicentre, open-label, randomised superiority trial. Lancet, 2020.
  2. Mallee WH, Wang J, Poolman RW, et al. Computed tomography versus magnetic resonance imaging versus bone scintigraphy for clinically suspected scaphoid fractures in patients with negative plain radiographs. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015.
  3. Mallee WH, Henny EP, van Dijk CN, et al. Clinical diagnostic evaluation for scaphoid fractures: a systematic review and meta-analysis. Journal of Hand Surgery (American), 2014.
  4. Huynh KA, Yoon AP, Zhou Y, Chung KC. Bayesian statistics to estimate diagnostic probability of scaphoid fractures from clinical examinations: a meta-analysis. Plastic and Reconstructive Surgery, 2021.
  5. Krastman P, Mathijssen NM, Bierma-Zeinstra SMA, Kraan G, Runhaar J. Diagnostic accuracy of history taking, physical examination and imaging for phalangeal, metacarpal and carpal fractures: a systematic review update. BMC Musculoskeletal Disorders, 2020.
  6. Yang TW, Lin YY, Hsu SC, et al. Diagnostic performance of cone-beam computed tomography for scaphoid fractures: a systematic review and diagnostic meta-analysis. Scientific Reports, 2021.
  7. Hawkins SD, Al-Kharabsheh Y, Li J, et al. Comparing conservative and surgical treatment of acute nondisplaced fractures of the scaphoid based on fracture location: a systematic review and meta-analysis. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2026.
  8. Zhang W, Yi C, Wu P, et al. Surgical fixation versus cast immobilization for adults with bicortical scaphoid fractures: a target trial emulation of the SWIFFT trial. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2026.
  9. Li NY, Dennison DG, Shin AY, Pulos NA. Update to management of acute scaphoid fractures. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2023.
  10. Dunleavy ML, Pilla N, Darowish M. Treatment options, return to play, and functional performance after operatively and non-operatively managed acute scaphoid fractures. Current Reviews in Musculoskeletal Medicine, 2025.
  11. Bond CD, Shin AY, McBride MT, Dao KD. Percutaneous screw fixation or cast immobilization for nondisplaced scaphoid fractures. Journal of Bone and Joint Surgery (American), 2001.
  12. Duncumb JW, Robinson PG, Williamson TR, et al. Bone grafting for scaphoid nonunion surgery: a systematic review and meta-analysis. Bone & Joint Journal, 2022.
  13. Zhang H, Gu J, Liu H, Yuan C. Pedicled vascularized versus non-vascularized bone grafts in the treatment of scaphoid non-union: a meta-analysis of comparative studies. ANZ Journal of Surgery, 2021.
  14. Dias JJ, Kheiran A, Ngo DN, et al. The onset, progress and factors influencing degenerative arthritis of the wrist following scaphoid fracture non-union. Injury, 2023.
  15. Windhofer C, Ivusic P, Jakob P, Lill M, Schauer J. Arthroscopic treatment of scaphoid nonunion, a new algorithm after six years practice. Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, 2025.

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